– Você não pode salvar a todos.
– Eu posso tentar.
Com um panteão imenso e em constante expansão de heróis de quadrinhos em múltiplas editoras, é preciso ter algo especial para se destacar e ganhar a predileção dos leitores. Tal atributo ficou bem visível desde a primeira aparição do Espetacular Homem-Aranha, em 1º de agosto de 1962, na revista Amazing Fantasy #15, criada por Stan Lee (roteiro) e Steve Ditko (desenhos).
Assim foi a estreia das aventuras de um adolescente comum (com inteligência bem acima da média, diga-se de passagem), alçado à posição de super-herói, após ganhar poderes equivalentes às características dos aracnídeos, devido à picada de uma espécie radioativa.
Acontece que, mesmo com esses aprimoramentos, o jovem continuou sendo um tipo de espelho crível para quem acompanhava suas façanhas nas revistas. Com uma situação financeira pouco confortável, uma vida amorosa que também não é das melhores, e a responsabilidade de manter em segurança aqueles que lhe são importantes, era como se cada roteiro ilustrado nos dissesse para não desistir, pois, as coisas dariam certo, de alguma maneira.
Depois de Tobey Maguire (minha representação favorita nas telonas) e Andrew Garfield darem vida a Peter Parker, desde 2015 o personagem passou a ser interpretado por Tom Holland nas telonas. Mas, foram necessários filmes (quatro solos e três participações), até que o ator encontrasse o ponto que faz do personagem um dos de maior relevância no Universo Marvel (seja nos cinemas, televisão ou na infinidade de produtos que têm seu rosto como chamariz).
Escrita por Destin Daniel Cretton (também à frente da direção), Chris McKenna e Erik Sommers, a narrativa de “Homem-Aranha: Um Novo Dia” (Spider-Man: Brand New Day) se passa quatro anos após os acontecimentos vistos em “Homem-Aranha: Sem Volta para Casa” (título de 2021, que começou a pavimentar um novo, coerente e fiel caminho para o “Amigão da Vizinhança”).
Neste capítulo anterior, por intermédio de uma magia praticada pelo Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch), o mundo inteiro se esqueceu da existência de Peter, incluindo sua namorada, Michele Jones / MJ (Zendaya) e seu melhor amigo, Ned Leeds (Jacob Batalon).
Isso significa que o protagonista está, de fato, sozinho, uma vez que, além desse apagamento da memória de todas as pessoas, ele perdeu sua tia, May (Marisa Tomei) e seu “mentor” (pelo menos no UMC), Tony Stark / Homem de Ferro (Robert Downey Jr).
Ainda que continue desfrutando de alguns itens materiais (que sua versão “raiz” nunca poderia adquirir com o salário que ganha como fotógrafo freelancer do jornal “Clarim Diário”), é o lado emocional do rapaz que contribui para seu crescimento, tanto em tela, quanto no coração dos espectadores.
Acompanhar à distância a rotina de MJ e Ned – da qual ele sonhava em fazer parte em um tempo não tão distante – enquanto lida com a constante criminalidade que parece nunca dar trégua à Nova York são paralelos com os quais ele precisa conviver, apesar de não ser uma tarefa tão simples. Talvez esse seja o momento em que ele, enfim, entende as atemporais palavras de seu tio, Ben (que, nos longas estrelados por Tom Holland, são ditas por sua tia, May): “Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades”.
Dessa vez, o “Escalador de Paredes” terá que enfrentar uma ameaça desconhecida, que se mostra poderosa o bastante para colocar milhares de vidas em risco. Descobrir do que se trata e combatê-la a tempo de salvar inocentes que nem fazem ideia do que os espreita será uma das missões mais urgentes do herói.
Nomes consagrados como Frank Castle / Justiceiro Jon Bernthale Bruce Banner / Hulk (Mark Ruffalo) surgem não só como meros coadjuvantes e fazem parte de ótimas sequências. Contudo, suas participações (felizmente) na história nunca ofuscam a importância da jornada de redescobrimento (físico e emocional) do “Teioso”.
Pelo contrário, as cenas que compartilham são necessárias e muito acrescentam ao resultado geral, mostrando com eficiência que, embora cada um tenha suas óbvias particularidades, é sempre bom saber que não precisamos estar solitários o tempo todo.
A novidade fica para a estreia de Sadie Sink em uma produção da Marvel, assumindo um papel sobre o qual, quanto menos se souber antes de assistir à produção, melhor será a experiência. Basta dizer que a atriz dá conta do recado e faz jus à expectativa de tornar-se uma grande promessa a ser vista diversas obras vindouras.
Tecnicamente, o filme é deslumbrante. A proposta mais urbana e realista da direção de fotografia de Brett Pawlak nos coloca imersos nos “voos” sustentados pelas teias (agora orgânicas, como a versão de Tobey Maguire, graças a uma nova mutação no DNA de Peter), em representações que lembram fases de um videogame. Enquanto faz das cores tradicionais de seu uniforme (vermelho e azul), a base identificável e tão tradicional imortalizada nos quadrinhos.
“Homem-Aranha: Um Novo Dia” é surpreendente, no melhor sentido da palavra. Uma linda carta de amor aos fãs que acreditam que o verdadeiro heroísmo consiste na coragem de seguir em frente, mesmo quando tudo (ou quase) conspira para que entreguemos os pontos.
Imperdível.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Sony Pictures.


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