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Ao longo da minha trajetória como médica veterinária, aprendi que muitas vezes um animal ferido conta uma história que vai muito além dele. Por trás de uma denúncia de maus-tratos, frequentemente encontramos famílias fragilizadas, ciclos de violência e situações de vulnerabilidade que atingem não apenas os animais, mas também pessoas.
É justamente essa relação que estudiosos descrevem por meio da chamada Teoria do Elo, um conceito que estabelece conexões entre a violência praticada contra animais e a violência direcionada a seres humanos, especialmente mulheres, crianças e idosos.
Diversos estudos apontam que comportamentos agressivos dentro de um ambiente familiar raramente se manifestam de forma isolada. A violência tende a atingir os mais vulneráveis daquele núcleo, e os animais muitas vezes estão entre as primeiras vítimas.
Dados divulgados pelo Ministério do Meio Ambiente indicam que uma parcela significativa dos agressores de animais também está envolvida em crimes contra pessoas, demonstrando que o problema é mais profundo do que aparenta.
Outro aspecto relevante observado por pesquisadores é a chamada violência intergeracional. Em muitos casos, indivíduos que cresceram em ambientes marcados por agressões acabam reproduzindo esses comportamentos na vida adulta, perpetuando um ciclo que atravessa gerações.
Embora a teoria seja amplamente debatida no meio acadêmico, para quem atua diretamente na medicina veterinária e na proteção animal, ela deixa de ser apenas uma hipótese. Em mais de duas décadas de experiência na área, foi possível observar inúmeras situações em que a violência contra um animal era apenas a ponta visível de um problema familiar muito maior.
Por esse motivo, acredito que o enfrentamento dos maus-tratos não pode se limitar apenas ao resgate do animal. É claro que retirar um pet de uma situação de risco é fundamental, mas muitas vezes isso não resolve a origem do problema. Infelizmente, não são raros os casos em que um agressor substitui o animal retirado por outro, repetindo o mesmo comportamento.
Por isso, defendo uma atuação integrada entre os órgãos de proteção animal, assistência social, saúde e segurança pública. É necessário olhar para o contexto completo, identificar fatores de risco, oferecer suporte às famílias quando necessário e interromper o ciclo da violência antes que ele produza novas vítimas.
Ao mesmo tempo, sigo defendendo punições rigorosas para quem pratica maus-tratos. Violência contra animais é crime e deve ser tratada com a seriedade que merece. A responsabilização dos agressores é indispensável, mas também precisamos investir em prevenção, conscientização e capacitação dos profissionais que atuam na linha de frente dessas ocorrências.
Mais do que proteger animais, estamos falando de proteger vidas. Quando aprendemos a identificar os sinais da violência e compreendemos suas múltiplas formas de manifestação, ampliamos nossa capacidade de agir e de construir uma sociedade mais segura, humana e compassiva.
Afinal, saúde animal, saúde humana e bem-estar social estão profundamente conectados. E ignorar essa relação é fechar os olhos para uma realidade que precisa ser enfrentada por todos nós.

por Dra. Ana Veterinária – Médica Veterinária com 20 anos de formação, atua em ações voluntárias da causa animal há mais de 30 anos. Vereadora reeleita pela Cidade de Santo André / SP


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