“O único segredo para a felicidade é esse: Ovelhas.”
Existe um nicho bem específico de obras protagonizadas por animais antropomórficos que, no geral, se sustentam através de histórias descomplicadas, que visam conquistar um público mais infantil ou quem procura apenas uma diversão despretensiosa.
Mas, também há produções que conseguem inserir um surpreendente conteúdo às suas narrativas e transformá-las em algo capaz de entregar um resultado muito mais complexo e emocional.
É o caso de “As Ovelhas Detetives” (The Sheep Detectives). Dirigido por Kyle Balda, o longa é uma adaptação do livro “Three Bags Full”, de Leonie Swann, e se passa na zona rural da Inglaterra – em uma fazenda de criação de ovelhas, onde George Hardy (Hugh Jackman) leva uma vida pacata ao lado de seu rebanho.
Com uma rotina simples, que inclui basicamente fazer a manutenção do local, o simpático pastor tem a inusitada ideia de, em todo fim de tarde, fazer uma espécie de leitura coletiva de algum livro de mistério e suspense, tendo seus animais como público cativo.
O que ninguém imaginava era que, mais do que espectadores interessados, eles se tornariam peças fundamentais para desvendar o suposto assassinato de seu amado tutor. E com uma capacidade de dedução e lógica invejável.
Liderados pela brilhante Lily (voz de Julia Louis-Dreyfus na versão original / Marcia Coutunho na versão brasileira) e pelo veterano Mimoso (voz de Chris O’Dowd / Alexandre Moreno) – que possui uma incrível habilidade de, ao contrário de suas companheiras de espécie, lembrar-se de tudo que já viveu – os ovinos vão mostrar que são muito mais do que criaturas fofinhas (se bem que são isso também!).
Toda boa narrativa envolvendo uma investigação precisa de figuras misteriosas que deixam o público em dúvida a respeito de suas ações. O sagaz roteiro de Craig Mazin é repleto delas, cada uma com razões próprias para executar George, bem ao estilo de grandes títulos do gênero.
Entre elas, Caleb (Tosin Cole), o concorrente com visão de mercado oposta a do pastor vegetariano (que não enxergava os animais como elementos para abate) a Rebeca Hampstead (Molly Gordon), filha distante que chega às redondezas justamente quando o crime ocorre e ela se torna a única beneficiária do testamento do pai.
Mas, é claro que os personagens mais interessantes não são os humanos. É emocionante acompanhar a jornada das ovelhas / carneiros em busca da verdade sobre a precoce partida de seu tutor. Nesse caminha, elas encaram a constatação de que a morte existe também fora dos livros, que o destino de antepassados não teve a leveza que imaginavam, e a aceitação do que é diferente (mesmo quando parece tão difícil fazê-lo).
São várias as camadas que dão à trama uma inesperada profundidade. Ao mostrar a delicadeza da amizade que se constrói a partir de uma convivência sadia, em contraste com os traumas vividos por Tião (Bryan Cranston), antes de chegar à fazenda, a produção dá a oportunidade de enxergarmos o que de fato importante na vida, por meio de importantes nuances.
O filme – que tem uma das definições de Deus mais bacanas que eu já vi – também acerta ao dar aos espectadores a oportunidade de fazer parte do mistério. Cada passo em direção à resolução, nos coloca mais próximos dos improváveis e competentes investigadores e nos faz acreditar que, de alguma maneira, é possível haver ovelhas detetives.
Vale muito a pena conferir.
por Angela Debellis
*Título assistido em Pré-Estreia promovida pela Sony Pictures.


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