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Crítica: “Coração de Lutador”

“Não quero ser uma lanterna, quero ser um raio laser”

Em 2024, a produtora A24 nos brindou com o excelente “Garra de Ferro”, trazendo uma biografia esportiva realmente impactante e bem trabalhada sobre o mundo do pro-Wrestling.

Agora, em 2025, a empresa leva às telas o início das artes marciais mistas nos anos 1990 com a cinebiografia “Coração de Lutador” (The Smashing Machine), inspirada na história real do lutador Mark Kerr, interpretado por Dwayne Johnson, mostrando a tentativa de evolução de sua carreira permeada de treinos intensos, combates árduos, superação de vícios e problemas de relacionamento.

Para contextualizar: a primeira questão é que a modalidade esportiva das artes marciais mistas – que virou quase sinônimo da rede esportiva UFC – é bem recente, uma derivação direta do brasileiro Vale Tudo, duelo quase sem regras que foi levado aos Estados Unidos,  onde criou regras para proteger a saúde dos lutadores e ampliar o público, ao diminuir o grau da violência.

Isso se reflete no filme com o primeiro combate sendo justamente no Brasil em um Vale Tudo, com o crescimento de regras contínuo em cada combate, forçando todos os lutadores a reavaliar continuamente suas estratégias de maneira radical em cada luta.

O resultado é uma grande variedade de lesões de alto impacto nos lutadores nos primórdios dessa modalidade esportiva, exigindo com frequência, analgésicos potentes – parte dos quais é viciante se tiver o manejo inadequado. O que, mesmo não sendo falado direto, justifica o início do vício do protagonista em opioides e a dificuldade para largá-los.

Kerr não é apenas uma máquina de destruição, é uma pessoa gentil com um lado poético em uma busca contínua de autocontrole, com altos e baixos, cuja atuação de Dwayne Johnson nos passa toda a intensidade de seu drama pessoal.

Apesar de ter virado piada o fato de metade dos papéis do ator ser o de “fortões gentis em longas passados na selva”, ele é um profissional versátil, com sua carreira prévia no pro-Wrestling ajudando a dar um preparo físico e mental excelente para o papel de um lutador.

A trilha sonora é predominantemente diegética, com o espectador ouvindo o mesmo que o herói ou sua plateia. As cenas de combate usam ângulos das películas televisivas de combate, ajudando ainda mais na imersão, mas sempre com uma visão bem clara dos golpes e da tensão dos personagens em cada momento da luta.

Criar uma cinebiografia não é fazer um documentário. Um filme é uma ficção contando uma narrativa que toca o público, uma obra de arte. Ao fazer uma obra biográfica, pega-se uma figura cuja história pessoal impactou o mundo de alguma forma e usa a mesma como base para criar arte. Assim, muitas produções do gênero falham em fazer um resumo da vida de alguém ao apenas jogar elementos importantes em tela, de maneira que parece incompleta.

Escrito e dirigido por Benny Safdie (tendo o próprio Mark Kerr como co-roteirista), “Coração de Lutador” é impecável. Cria uma obra artística que nos faz torcer e chorar durante um recorte preciso da história de um esporte e da carreira, de 1997 a 2000, de um praticante esportivo de renome mundial. Recomendo a todos os fãs de cinema.

por Luiz Cecanecchia – especial para A Toupeira

*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Diamond Films.

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