“Você vai ter que entrar na brincadeira.”
Longas de terror que fazem uso de elementos do universo infantil tendem a ser naturalmente incômodos. Seja na forma de brinquedos possuídos ou pessoas que se tornam um simulacro de bonecas ou marionetes, a ideia de trazer a inocência da infância para narrativas com um tom completamente diferente do usual, aceita a ousadia como seu maior risco.
Dirigido por Rod Blackhurst (que também assina o roteiro junto a Brandon Weavil), “Dolly – A Boneca Maldita” (Dolly) nos apresenta uma personagem que se encaixa bem na ideia de fazer do grotesco algo que confunde e perturba.
Sem dizer uma única palavra e com o rosto escondido por trás de uma inexpressiva máscara de porcelana, Dolly (Max The Impaler) se converte em uma ameaça que transita entre a brutalidade física e uma nítida vulnerabilidade emocional.
Uma junção de força descomunal que se alterna com movimentos repetitivos – que tanto lembram ações de crianças em seus primeiros meses de vida, quanto uma característica típica das pessoas autistas. Essa misteriosa figura transformará o que era para ser um encontro romântico em uma experiência violenta e mortal.
Chase (Sean William Scott) planeja pedir sua namorada, Macy (Fabianne Therese), em casamento. Para isso, viaja com ela até uma floresta (cenário que nunca passa segurança nesse tipo de produção), onde descobrem haver uma espécie de templo a céu aberto, constituído por dezenas de bonecas em variados estados e tamanhos.
Os indícios de um ritual com ares perversos fazem o casal entender (com um grande atraso, diga-se de passagem) que talvez não fosse uma boa ideia permanecer no local, mas já é tarde demais. Após ferir Chase em uma sequência absolutamente explícita, Dolly leva Macy para sua casa, na qual passará a cuidar dela como se fosse sua própria filha de brinquedo.
Por razões óbvias – que incluem uma sessão de espancamento, o uso de roupas infantis e uma tenebrosa intenção de alimentar a jovem – fugir da residência e dessa situação passa a ser não só uma desesperada tentativa de recuperar a dignidade, mas uma questão de vida ou morte.
Contudo, essa empreitada não será fácil, em especial, porque Macy descobre que há mais alguém na casa e que ela não é a primeira vítima de Dolly. Tal revelação leva a outras arriscadas escolhas, que dão ao público uma vaga ideia do passado da antagonista e o que pode ter acontecido para transformá-la nessa ameaçadora criatura.
Filmado em 16mm, “Dolly – A Boneca Maldita” acerta em seu visual granulado, típico de obras das décadas de 1970/1980, época em que filmes de terror slasher exploitation tiveram a, por muitos ainda considerada, melhor safra, elevando o estilo à preferência de uma legião de fãs.
Por outro lado, a trama cai na tentadora armadilha de cometer os mesmo erros vistos em tantos outros conteúdos semelhantes. Como a indecisão entre assumir a selvageria absoluta ou dar margem a momentos que abusam do direito de serem inverossímeis.
O final em aberto indica o que pode ser a intenção de se aprofundar na mitologia de Dolly. E aí, quem sabe, colocá-la entre os grandes nomes do gênero.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pela Paris Filmes.


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