“Tudo o que nasce deve morrer, passando pela natureza em direção à eternidade.”
Alguns filmes são concebidos para serem obras de arte, no sentido mais profundo dessa expressão. Títulos cuja importância ultrapassa o limite das telas de cinema para entrar nos corações de cada espectador que, extasiado, acompanha o desenrolar de narrativas fortes o bastante para jamais serem esquecidas.
Em “Hamnet – A Vida Antes de Hamlet” (Hamnet), o público é convidado a visitar o interior da Inglaterra, no século XVI, onde se passará a história roteirizada por Maggie O’Ferrell (que também assina o livro homônimo de 2020, no qual o longa se baseia).
Esse é o cenário do filme dirigido por Chloé Zhao, que nos apresenta a enigmática Agnes (Jessie Buckley), cuja aproximação com a natureza – dom herdado de sua falecida mãe – lhe rendeu a alcunha de “Filha da Bruxa da Floresta” entre os habitantes locais.
Habituada a uma rotina sem novidades ou expectativas, a protagonista vê tudo mudar com a chegada de um Tutor de Latim, Will (Paul Mescal) – que terá seu nome completo dito em voz alta apenas próximo ao fim da produção, mas que tem uma identidade conhecida mundialmente, sejamos fãs ou não de seus trabalhos: William Shakespeare.
Embora não pareçam exatamente compatíveis à primeira vista, devido à disparidade de suas origens, os jovens descobrem acabam se casando e constituindo família. De seu relacionamento, nascem três filhos: a primogênita, Susanna (Bodhi Rae Breatnach), e os gêmeos, Judith (Olivia Lynes) e Hamnet (Jacobi Jupe).
Contudo, a paixão de Shakespeare pela escrita não pode ser aprisionada em um cotidiano pautado na simplicidade do dia-a-dia. É quando o pretendente a dramaturgo decide partir para Londres, a fim de batalhar pelo reconhecimento de seu talento.
E o que era para ser algo passageiro, ganha contornos muito maiores, com a distância de sua esposa e filhos tornando-se parte de sua jornada. Como se as tentativas de fazer coexistirem o escritor renomado e o pai de família fossem todas invalidadas por algum acontecimento inesperado.
Por mais que tenhamos consciência de nosso tempo finito neste mundo, a verdade é que nada nos prepara para a morte, ainda mais quando esta parece tão prematura e injusta. É com a perda de Hamnet, aos apenas 11 anos de idade – vítima da Peste que assolava a Europa – que pais e irmãs terão que lidar.
Não existe uma cartilha que ensine a enfrentar o luto sem sair emocionalmente destruído. A dor de Agnes, expressada através de gritos dilacerantes e silêncios pungentes, é a expressão da mãe que não verá o filho crescer; da esposa que se viu sozinha diante da enfermidade que ceifou a vida de seu menino, enquanto o marido insistia em realizar seu sonho longe dali – na crença de que haveria tempo para tudo.
A confirmação da partida é impiedosa. Porque não se perde apenas o que já se havia conhecido, mas também os anseios do que estava por vir. Shakespeare usa as armas que tem – nesse caso, a habilidade de escrita – para representar Hamnet adulto (interpretado por Noah Jupe), mesmo que apenas em um palco de teatro, através de um texto que ficaria marcado para sempre como um dos mais importantes da literatura, em sua obra atemporal, “Hamlet”.
Muito se fala nos dias atuais sobre viver experiências – cinematográficas, gastronômicas, teatrais, entre tantas outras que surgem a cada instante. E talvez seja a melhor forma de descrever a sensação de assistir a “Hamnet – A Vida Antes de Hamlet”, que já traz vários prêmios na bagagem e deve ser um dos grandes destaques na vindoura edição do Oscar.
O conjunto que se forma pela história avassaladora, pelo trabalho de fotografia impecável de Lukasz Zal (que nos dá a sensação de estarmos admirando belíssimas pinturas em forma de fotogramas) e pela trilha emocionante sonora de Max Richter é daquelas coisas que nos fazem entender a importância e complexidade da arte como escape necessário em todas as etapas de nossas trajetórias.
Nas palavras do filósofo alemão Friedrich Nietzsche: “Temos a arte para não morrer da verdade”. Que sejamos eternos através de / graças a ela.
Imperdível.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Universal Pictures.


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