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Crítica: “O Drama”

“É só lembrar que vocês se conhecem muito bem e ficam completamente à vontade juntos.”

Talvez o que torna os Contos de Fadas tão irresistíveis seja o fato de suas histórias deixarem a cargo dos espectadores imaginarem o que vem após o “Felizes Para Sempre”. Ou, quem sabe, baste esse encerramento para se acreditar que é possível viver um relacionamento duradouro e sem falhas.

Acontece que, na vida real (ou em obras fictícias que a emulem), as coisas não são tão encantadoras assim e é preciso – ainda que não seja uma tarefa simples – aceitar que todos (incluindo nós mesmos) têm defeitos e cometem erros. Lidar com essa constatação é o que nos fará (ou não) criar laços relevantes em nossas trajetórias.

A poucos dias de sua cerimônia de casamento, Emma (Zendaya) e Charlie (Robert Pattinson) estão no auge da paixão. A relação que começou de maneira inesperada (e adorável, diga-se de passagem) logo torna-se forte o suficiente para o jovem casal dar esse importante passo adiante.

Contudo, o que os protagonistas de “O Drama” (The Drama) não imaginavam é que tudo poderia ser posto a perder, devido a uma inusitada ideia de seus amigos / padrinhos, Rachael (Alana Haim) e Mike (Mamoudou Athie): confessar a pior coisa que cada um já fez até aquele momento.

Para incentivar os noivos, segredos dos próprios amigos são revelados. E, quando as cartas são colocadas na mesa, o filme escrito e dirigido por Kristoffer Borgli perde o ar de comédia romântica genérica, para se tornar um forte candidato a alvo de debates acalorados fora das salas de cinema.

Não é possível falar muito a respeito dos caminhos que a narrativa toma, sem entrar no perigoso campo de spoilers, mas dá para dizer que o amor que Charlie obviamente sente por Emma sofre um grande abalo, uma vez que ele tem fundamentadas dificuldades em lidar com o testemunho da noiva.

Ela, por sua vez, tenta minimizar a gravidade das coisas, agindo com uma naturalidade forçada e acrescentando elementos que poderiam justificar certas ações, o que, no geral, não soa muito efetivo, por razões óbvias.

Na posição de quem assiste de fora ao desenrolar dos acontecimentos, o público consegue enxergar a totalidade dos desdobramentos que se dão após a fatídica conversa, e o quanto algo impensado (e escondido sob o peso de anos de um doloroso sigilo particular) pode afetar não só o modo como nos enxergamos, mas, principalmente, como somos vistos por aqueles que nos cercam.

Além da cena da confissão que dá a guinada na trama, o longa tem outras sequências que merecem destaque, como a do ensaio fotográfico pré-casamento feito por uma fotógrafa que nem faz ideia do que se passa nas cabeças de Emma e Charlie (já estremecidos e desconfortáveis um ao lado do outro) e tenta criar um clima animado que não cabe na situação.

Certamente, o grande trunfo (ou a derrocada, dependendo do ponto de vista) de “O Drama” é tocar em assuntos delicados que devem incomodar boa parte do público. O que pode tornar a obra bastante divisiva quanto a opiniões sobre sua proposta e conteúdo.

por Angela Debellis

*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Diamond Films.

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