Crítica: “Uma Vida – A História de Nicholas Winton”

“Se algo não é obviamente impossível, então deve haver uma maneira de fazer”.  É com essa corajosa visão que, em 1938, um jovem britânico, um jovem corretor da Bolsa de Valores, sai de Londres em direção a Praga (capital da Tchecoslováquia), a fim de tentar, de algum modo, mudar o triste destino de vítimas das atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial, a quem qualquer tipo de esperança era veementemente negado.

Dirigida por James Hawes, “Uma Vida – A História de Nicholas Winton” (One Life) é a cinebiografia de um homem “comum”, que conseguiu resgatar 669 crianças judias, dando a elas a oportunidade de construir uma nova vida em lares adotivos na Grã-Bretanha. A trama é baseada no livro “If It’s Not Impossible…: The Life of Sir Nicholas Winton” de Barbara Winton, recém-lançado no Brasil, pela Editora Cultrix com o mesmo título nacional do filme.

O roteiro escrito por Lucinda Coxon e Nick Drake alterna eventos com um intervalo de 49 anos entre si – e faz isso com eficácia. Em 1938, Nicholas “Nick” Winton (nessa fase, muito bem interpretado por Johnny Flynn) decide juntar-se a um tímido, mas destemido grupo autointitulado Comitê Britânico para Refugiados. A intenção não era apenas fazer promessas àqueles que se viam na iminência de ter suas famílias exterminadas nos campos de concentração, mas sim, mostrar que ainda havia algum foco de luz no meio de toda escuridão causada pelas ações nazistas.

Para isso, também contará com a primordial ajuda de sua mãe Babette (Helena Bonham Carter) que tomará a frente na missão de conseguir arrecadar fundos para bancar os translados entre os países. Sua força e obstinação em auxiliar a causa – mesmo diante de tantas dificuldades burocráticas – são notáveis.

Embora tenha sido responsável pelo resgate de centenas de crianças, a verdade é que, mesmo depois de quase cinco décadas (nessa versão mais velha, brilhantemente vivido por Anthony Hopkins), o protagonista nunca deixou de pensar em todas as outras que permaneceram no país, quando a Gestapo – a execrável polícia secreta de Hitler – interveio com toda brutalidade que lhe era peculiar e impediu as viagens de trem que as levariam até um território seguro.

Tal sentimento torna-se um obstáculo para conseguir se desfazer de documentos antigos, incluindo inúmeras fotos que serviam para que as famílias britânicas “escolhessem” a criança cuja adoção (a princípio, temporária) lhes fosse mais conveniente. O material que, após tantos anos, ganha ares de registros históricos, acumula-se fisicamente em seu escritório e garagem, e emocionalmente em seu coração.

Em dado momento de “Uma Vida – A História de Nicholas Winton”, existe a citação de um ditado hebraico: “Não comece o que não pode terminar”. Mal sabia Nick o quanto havia de verdade nessas palavras, ao levar seu mais completo livro de registros até o conhecimento da pesquisadora francesa do Holocausto, Elisabeth Maxwell, (Marthe Keller). Essa atitude foi o estopim para algo que ele jamais poderia imaginar, mas que seria fundamental para seguir em frente e, quem sabe, dar o encerramento necessário a essa etapa de sua trajetória.

Ainda que nada aqui escrito possa configurar-se como spoiler – dada a grande passagem das décadas que separam as partes da narrativa, creio que baste saber que a história dos resgates foi levada à TV, em 1988, durante o programa de auditório “That’s Life!”. A visibilidade gerada pela exibição culminou em uma das mais comoventes demonstrações de gratidão que eu me lembro de ter visto (parte pode ser conferida no trailer oficial do longa e a reprodução do vídeo original pode ser encontrada no YouTube).

Nas palavras do estadista, político e filósofo irlandês Edmund Burke, “Ninguém comete erro maior do que não fazer nada porque só pode fazer um pouco”. Que cada um de nós tenha essa consciência e não se exima de realizar feitos, por achá-los irrelevantes. Que a empatia seja mais do que uma pauta frequentemente levantada nas redes sociais, para tornar-se algo com o qual saibamos conviver, para tornar nossa existência (e de nossos próximos) algo bem melhor.

por Angela Debellis

*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Diamond Films.

Filed in: Cinema

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