Crítica: “Zona de Interesse”

Hoss. Rudolf Hoss. Assim dito, provavelmente este nome não signifique nada para o atual público de cinema. Porém, ao se explicar que este militar alemão foi o diretor do campo de concentração nazista de Auschwitz isso passa a ter outro significado.

Está se falando de um criminoso de guerra que nessa região da Polónia, durante a Segunda Guerra Mundial, nos anos de 1940 a 1945, foi o responsável pela prisão, maus tratos, tortura e morte de vários milhões de pessoas, todas, ou quase todas, judias.

O anterior pode ser mencionado já porque, embora “Zona de Interesse” (The Zone of Interest) justamente se ocupe de Hoss e o campo de concentração, a situação em geral é conhecida pela fama espantosa desse lugar. Mas, o que devemos dizer também, é que este não é mais um título cinematográfico sobre o nazismo – poderiam ser citados dezenas, talvez até centenas, que trataram o assunto.

Embora a gama anterior seja vasta, abrangendo diversos tipos de abordagens e com distintos níveis de qualidade artística, pode-se afirmar que “Zona de Interesse” é uma produção diferente, única. Porque pode ser entendida por espectadores que não saibam nada do resumido antes, mas, também – e provavelmente, sobretudo – por pessoas que conhecem o acontecido na guerra em geral e nesse local em especial.

O diretor Jonathan Glazer nos apresenta a Rudolf Hoss (Christian Friedel) e a Hedwig, sua esposa (Sandra Hüller, a quem se pode ver também em “Anatomia de uma Queda”, trabalho pelo qual recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz Principal), em sua vida pessoal e familiar e em suas posturas sociais e ideológicas. E, claro, esta realização se ocupa, assim mesmo, dos campos de Auschwitz (aliás, no plural porque foram vários nesta região).

Porém, o faz de um modo muito especial: pelo geral, tanto no caso dos personagens quanto de Auschwitz, sugerindo e não mostrando. Por meio da música (responsabilidade de Mica Levi), da fotografia (de Lukasz Zal, em particular com o uso extremamente criativo de enquadres e da cor), do som (impactante, de Maximilian Behrens), da edição (Paul Watts), e de outros elementos citáveis, como figurino e design de produção.

Desde o início, “Zona de Interesse” resulta diferente ao ponto de criar certa ambiguidade no pensamento e nas sensações emocionais dos espectadores, oscilando entre a curiosidade, o incômodo, o absorvente e o devastador.

Também no final se produz essa mesma mistura, até o público sentir-se desnorteado, desgarrado. Seguramente, Glazer criou estas impressões para, além do filme em si, ter uma espécie de rejeição horrorosa sobre esta página dilaceradora da história humana.

Como dito, para criar tal ambiente, não utilizou morbosidade nem explicitude pesada e grosseira. Pelo contrário, foi sutil, apelando não só aos sentimentos do público, mas também à inteligência. Elaborou cuidadosamente as imagens e as entrelinhas, criou contrastes – alguns mais ou menos óbvios, mas sempre indignantes e outros surpreendentes.

Evidenciou o cinismo, a divisão absurda entre duas personalidades coexistindo em uma mesma pessoa, iludindo a exibição e apropriando-se da elipse. Até para deixar em evidência uma relação sexual o fez de modo dedutível, para nada explícito.

Utilização inovadora, talvez única, de recursos da linguagem cinematográfica, combinada com uma temática densa que não por conhecida resulta óbvia. Tudo isso faz de “Zona de Interesse” uma realização muito especial.

Não é casualidade que tenha sido nomeado a cinco Oscar: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Direção, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Som. Reiterando: para nós é uma obra incomum. Arrasador.

por Tomás Allen – especial para A Toupeira

*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Diamond Films.

Filed in: Cinema

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