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“Cavalo Selvagem” é o segundo volume da tetralogia “Mar da Fertilidade”, do autor japonês Yukio Mishima. O romance se passa pouco após o Incidente de 15 de maio, uma tentativa de golpe de estado ocorrida em 1932, e acompanha, sobretudo, o jovem Isao Iinuma, filho do antigo criado de Kiyoaki Matsugae, protagonista do primeiro volume.
Reativo ao contexto histórico que pairava sobre um Japão cada vez mais ocidentalizado, Isao se vê inspirado pela Liga do Vento Divino, grupo de samurais que incitou rebelião contrária à nova política imperial no início da era Meiji.
“Nesse momento, o pecado e a morte, o seppuku e a glória se fundiam pela primeira vez no penhasco onde se ouve o sussurrar do vento que sopra entre o pinheiral, quando o sol se levanta. Isao não pensou em ingressar na academia militar nem na academia naval porque nesses locais a glória consumada estava à espera, porque o pecado de ser ocioso já estava purificado.” [p. 185]
Projetado por Mishima como símbolo de pureza, o jovem entende a integridade como o modo de viver e o sacrifício como a razão de ser, e busca se cercar de pares cuja concepção idealizada de Japão vai ao encontro da sua.
Por outro lado, continuamos com a perspectiva, 19 anos depois dos eventos de Neve de primavera, do agora juiz auxiliar Shigekuni Honda, amigo de Kiyoaki, que enxerga no direito e no processo legal os meios pelos quais a ordem de uma nação se consolida.
“— […] É claro que vocês são livres para levarem o plano a cabo. Mas, como alguém que foi consultado uma vez, vou tentar impedir sua execução do fundo do meu coração. Não posso apenas observar, de braços cruzados, vocês, jovens, desperdiçarem a vida em vão. Escute. Suspenda!” [p. 268]
Ao encontrar-se com Isao, Honda nota nele semelhanças um tanto improváveis com o velho amigo, o que o leva a crer que ambos estão conectados de alguma forma. Dicotomias — jovialidade e maturidade, tradição e “progresso”, nativo e estrangeiro, razão e emoção —, sejam colocadas em embates diretos ou não, ressaltam a percepção do autor sobre a pluralidade de visões de mundo e suas consequências.
Regado de elementos característicos da cultura japonesa, da vestimenta aos costumes, “Cavalo Selvagem” serve como palco aberto à pureza, ao ideal, ao romântico. A linguagem rebuscada, complexa e, de fato, selvagem de Mishima revela nuances de uma mente que compreende o mundo pelo viés das cores quentes, mesmo que pintada em um sol de inverno visto por dentro de uma cela escura.
da Redação A Toupeira


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