
Eletrizante. Cena inicial impactante. Um espetáculo de provocação. “Como é que eu vim parar aqui?” é incômodo, mas Thai de Melo faz esse monólogo tornar-se necessário.
Thai não é uma atriz, ela mesma se posiciona. Sendo assim, pode fazer o que quiser, quebrando tabus do teatro, até mesmo ultrapassando o volume confortável do microfone, com sua voz rasgada, esganiçada e sem técnica, que dói na nossa própria garganta, mas que comunica de fato.
Sua autobiografia é de grande espelhamento. Não há como não achar algo nela que se assemelhe com nossa própria vida. E o mais interessante é o “dar a cara a tapa”, é o desnudar-se das convenções sociais, é o mostrar-se verdadeira.

Eis que desperta um velho tema polêmico: qualquer pessoa pode atuar no palco? Entretenimento apenas? Não, Thai pode não ser atriz, mas ela entrega muito mais que mero entretenimento.
Com sua acidez sarcástica, deu seu recado, propôs reflexão e cutucou a autocrítica. Fazer-se de desentendido diante de tudo o que ela expôs, é não aceitar seus próprios erros e deslizes, não aceitar-se humano.
O roteiro de sua vida sublinhada em entrelinhas torna o caminhar de uma persona quase comum brigando com os estereótipos, e consagrando-se na estranheza disforme de seu corpo desconstruído. É um poema epopeico da vida alheia, a rotina inflada com o peso e as tensões do viver neste planeta, nesta época apocalíptica.

A direção não poupa a performer e explora diversas movimentações, conquistando e invadindo todos os cantos e planos do palco, onde a luz conversa com ela, e respingava energia no público, preenchendo seus espaços vazios, ou apenas dando ênfase em detalhes escolhidos para roubar ainda mais a atenção de todos.
Mas, em 55 minutos que passam rápido, Thai também não poupa a direção, sugando-a com todos os seus recursos, como uma vampira sedenta por cada gota de sangue disponível. Absorvendo-a por todos os seus poros.
Com temporada que vai até 06 de maio, no Teatro Santos-Augusta, em São Paulo, “Como é que eu vim parar aqui?” conta com uma forte equipe que dá vida a esse potente espetáculo. Bruno Guida é o diretor, enquanto a dramaturgia é de Juliana Rosenthal e da própria Thai de Melo.
Créditos das imagens: @maltoni / Divulgação.
por Carlos Marroco – especial para A Toupeira


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