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Crítica: “Cara-de-Barro”

“Você tem tantas faces. Deve ser difícil encontrar o verdadeiro Matt Hagen.”

Independente de sua preferência quando se trata de conteúdos relacionados a heróis, quem é fã de quadrinhos consegue reconhecer que o Batman tem uma das melhores (para não dizer a melhor) galeria de vilões das revistas.

Por isso mesmo, em um panteão de antagonistas que conta, entre outros, com palhaços maníaco-homicidas, um promotor de comportamento dúbio, um gênio estrategista obcecado por enigmas, e mulheres cuja eficiência no combate físico se equipara à sua beleza / inteligência, é difícil se destacar.

A verdade é que, com tantas opções interessantes – cujos nomes já entraram há tempos para o imaginário popular / cultura pop – ao pensarmos em malfeitores do universo do Cavaleiro das Trevas, não é tão comum (embora não seja impossível, obviamente), citar Cara-de-Barro de imediato. Pelo menos, até agora.

Em uma decisão corajosa para uns, controversa para outros, a DC sai de sua zona de conforto (entenda-se apostas em figuras tidas como garantia / maior possibilidade de sucesso) para focar na criação de 1940, de Bill Finger e Bob Kane, com uma narrativa que surpreende pela qualidade e pela relevância que pode ter no futuro de títulos baseados em quadrinhos da aclamada editora.

A trama de “Cara-de-Barro” (Clayface) se passa em Gotham City e nos apresenta o ator em ascensão, Matt Hagen (Tom Rhys Harries). Advindo de Coast City, o jovem está em um momento bastante promissor de sua carreira, cujo reconhecimento de trabalho inclui uma recente indicação aos Oscar.

A fim de celebrar a ótima fase, ele vai com o amigo de infância, Corey Bowery (Joshua James), até um clube (que, de início, eu pensei tratar-se do Iceberg Lounge, do Pinguim). Lá, encontra a também atriz, Mia Torrez (Joana Ribeiro), com quem passa a noite – mesmo ciente do envolvimento da moça com Markos Szabo (David Dencik), temido gângster local.

Como já era previsto, tal ato implica na rápida derrocada do protagonista, que vê sua promissora trajetória ser interrompida, devido à mutilação de seu rosto pelo mafioso, que não hesita em retalhá-lo com um canivete, na primeira sequência explícita / gráfica do longa.

Desesperado por uma recuperação que o leve de volta ao caminho da fama, após passar por seis cirurgias mal sucedidas e ter seu patrimônio delapidado pelo advogado corrupto, Frank Fitzpatrick (Eddie Marsan), Matt aceita tornar-se cobaia humana de um estudo inédito.

Especialista no ramo da nanomedicina, a Doutora Caitlyn Corr (Naomi Ackie) o submete a um tratamento pioneiro através do qual nanocéculas passam a fazer parte de sua composição celular, não apenas da superfície. Meses depois de sessões intensivas, ele está pronto para retornar aos holofotes.

Mas, nem tudo é tão simples assim e, quando chega à sua primeira aparição pública com o “novo rosto”, Matt percebe que estrutura de sua pele não tem uma consistência permanente. E esse é o ponto de partida para novas descobertas que o levarão a cruzar aquela linha invisível que conserva nosso réu primário intacto (e nos mantém longe da prisão).

O roteiro de Mike Flanagan e Hossein Amini tem muitas camadas a se exaltar. A ousadia em enveredar para um lado realmente sombrio, onde o body horror deixa de ser um artifício gratuito, para tornar-se uma base necessária à condução do que acompanhamos em tela.

Dirigido por James Watkins, o longa é muito mais do que uma (excelente, diga-se de passagem) história de vingança. Em cada ação de Matt, existem dores prévias, traições, expectativas frustradas. E sentenças escritas com mais afinco, a partir da ação das nanocélulas em seu organismo.

Destaque para o excepcional trabalho do extenso departamento de maquiagem, que alcança o equilíbrio perfeito entre o incômodo que leva o público semicerrar os olhos em determinadas cenas, e o choque que faz o espectador querer ainda mais do que lhe é oferecido. Horror Corporal para ninguém botar defeito, a ser lembrado na próxima temporada de premiações.

E para as atuações principais da obra, em especial a de Tom Rhys Harries, que assume, sem dificuldade, a posição de rosto definitivo do personagem; a de Naomi Ackie, cujo papel exige uma constante transição entre o encantamento com os resultados do próprio trabalho e o temor de suas consequências. E a de Max Minghella, que dá vida a John Borrelli, noivo de Caitlyn e agente do sempre problemático / corrupto Departamento de Polícia de Gotham.

Também cabe ressaltar a eficácia ao se mesclar elementos cuja utilização no mesmo material parece improvável, seja a maravilhosa citação de um trecho de “O Mercador de Veneza”, de William Shakespeare, ou a gravação de “If you leave me now” – clássico de 1976 da banda Chicago, que ganha a voz da cantora Jasmine Jethwa, em uma ótima regravação.

Ao contrário da textura da pele de seu protagonista, “Cara-de-Barro” é muito sólido. Um dos maiores acertos da DC nos últimos anos.

por Angela Debellis

*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Warner Bros. Pictures.

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