“Não tenho muito a dizer, então, me calo.”
A chegada das redes sociais trouxe consigo uma estranha necessidade de se expor. A impressão é a de que milhares de pessoas ao redor do planeta não são capazes de demonstrar qualquer tipo de sentimento, se isto não for devidamente postado em algum lugar da Internet.
E esse exagero com o qual lidamos atualmente, é incômodo, porque não é necessário ter a validação de estranhos, é possível vivenciar alegrias, tristezas, temores, sem que cada momento seja fotografado, filmado, compartilhado como um vírus que se espalha em impressionante velocidade.
Por outro lado, a apatia diante de tudo e todos parece tão problemática quanto. Quando nem a nossa própria opinião importa, há algo de errado em nossa postura. Ser uma tela em branco pode significar ter mais abertura a novos caminhos, mas também pode ser a prova de que não temos a menor ideia da direção a ser seguida.
Assistir a “O Estrangeiro” (L’Étranger / The Stranger) é um curioso exercício, uma vez que o público começa a acompanhar a narrativa (baseada no livro homônimo do filósofo e escritor franco-argelino, Albert Camus, lançado em 1943, e agora adaptada e dirigida por François Ozon) tentando descobrir o que se passa na cabeça e no coração de Meursault (Benjamin Volsin)
O jovem francês, que desempenha funções burocráticas em um escritório na capital da Argélia, Argel, nos anos de 1930, intriga por sua expressão que é mais do que apenas neutra, é indecifrável. Seu olhar confunde ao equilibrar-se entre o anseio por tudo e a expectativa por nada.
Não parece existir algo relevante o suficiente para tirar o protagonista de seu estado de apatia (consciente ou inata). Seja a morte da mãe, a quem vela e enterra , sem derramar uma única lágrima; o amor radiante a ele dispensado por sua namorada, Marie Cardona (Rebecca Marder); a amizade barulhenta de Raymond Sintès (Pierre Lottin); ou mesmo o testemunho ocular de maus tratos animais cometidos por seu vizinho idoso, Salamano (Denis Lavant).
Até que ele comete um crime, ao matar um cidadão árabe. E esse é o motivo que o levará à uma lúgubre cela de prisão e a um futuro julgamento, durante o qual as dúvidas sobre sua postura diante da vida terão papel fundamental no veredito de seu caso.
A constante indiferença de Meursault (cujo primeiro nome não é revelado, ampliando o inevitável distanciamento) faz com que não só os que o cercam na trama, mas o público que assiste ao filme também se sinta perdido frente a ele. O desconforto por não saber qual atitude será tomada – simplesmente por não se haver respeito por nenhuma uma orientação moral / social – é o tudo que se consegue alcançar nessa estranha relação que se estabelece (ou não) entre personagem e espectador.
O primoroso trabalho de fotografia de Manu Dacosse – improvável fruto da escassez orçamentária da produção – é um de seus pontos altos, acrescentando uma densa e importante camada à história do longa. A monotonia dos tons de cinza carrega uma angústia disfarçada de elegância, e dão a Mersault a possibilidade de ser visto como é de fato, longe das lentes emocionais que dão cores – tantas vezes, ilusórias – à vida de quem sabe que a jornada nem sempre é simples.
Tal qual “O Estrangeiro”, obra densa, que não deve agradar a todos, mas cuja superfície áspera e pouco convidativa é capaz de esconder significados bem mais amplos e, quem sabe, até mesmo familiares em algum ponto de nossas existências.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa Virtual promovida pela California Filmes.


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