“Nossa casa, nosso bairro, nossa rua inteira mudou de lugar.”
Obras com teor histórico / real obviamente têm seu espaço e valor em diversos ramos. Seja através das páginas de alguma biografia ou pela adaptação cinematográfica / televisiva de um caso, acompanhar fatos verídicos provoca um grande impacto no público consumidor desse tipo de conteúdo.
Mas, nada supera a imensa vantagem que a ficção oferece. Afinal, por seu intermédio, é possível juntar em uma mesma trama animais pré-históricos, nostalgia de décadas passadas (não tão longínquas) e agregar tais ingredientes a uma receita surpreendente.
Essa é a proposta de “O Fim da Rua” (The End of Oak Street), longa escrito e dirigido por David Robert Mitchell, que leva aos cinemas uma história tão inusitada que é capaz de despertar a curiosidade e atrair a atenção desde o início. J. J. Abrams (cuja bagagem prévia no gênero de ficção científica fala por si só) é um dos produtores.
A narrativa se passa em 1982 (saudades, Década de 1980), na Rua Oak, localizada em um bairro residencial de um subúrbio dos Estados Unidos. Os protagonistas são os Platt, integrantes de uma família comum, que além de enfrentar atribulações próprias, ainda terão que descobrir como sobreviver a um evento inexplicável.
Denise (Anne Hathaway) está insatisfeita com seu casamento, mas não tem coragem de assumir. A frustração serve de tema para um livro que escreve às escondidas e que se torna sua única válvula de escape.
Seu marido, Greg (Ewan McGregor) parece ser uma boa pessoa, daquelas que não se abatem com os contratempos (mesmo se a frequência for injusta). Essa positividade excessiva acaba sendo sua grande força / seu maior defeito.
O casal vive junto aos dois filhos adolescentes: a aspirante a astrônoma, Audrey (Maisy Stella); e o introspectivo caçula, Brian (Christian Convery). Completando a família, há Starbuck (vivido por dois atores caninos, Buzz e Brisket), um corajoso cachorro da raça Boiadeiro Australiano cuja segurança – como de todo animal que aparece em filmes “perigosos” -, foi minha maior fonte de apreensão.
A sufocante monotonia disfarçada de rotina é interrompida quando algo que desafia a compreensão ocorre e uma área com extensão de quilômetros é invadida por dinossauros. Sim, os gigantescos animais extintos há milhões de anos surgem transitando entre casas, dominando céus e terras e mostrando a insignificância física de nossa espécie perante eles.
Os esclarecimentos para tal fato são expostos de maneira gradual e as primeiras impressões nem sempre mostram-se precisas, mas o progresso da ação nos convida a embarcar na improvável viagem e a nos permitir acreditar no que vemos em tela.
A reprodução dos colossais répteis pré-históricos é maravilhosa. Espécies pouco lembradas em títulos já realizados, além de detalhes de suas estruturas cobertas por penas acrescentam veracidade e, de algum modo, ajudam a amplificar o temor da incerteza do futuro.
O roteiro alterna coragem, ousadia e sagacidade ao tomar decisões que não costumam nem ser cogitadas nesse tipo de produção. E isso é louvável, porque faz com que os espectadores saiam da zona de conforto e passem a imaginar que nada / ninguém está efetivamente imune aos perigos iminentes.
Cabe também exaltar a primorosa representação da época que serve de palco para “O Fim da Rua”, uma agridoce lembrança àqueles que a viveram. Tudo embalado por uma evocativa trilha sonora que traz nomes de ícones como Billy Joel e Steve Winwood.
Um dos meus favoritos do ano. Vale muito a pena conferir nos cinemas.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Warner Bros. Pictures.


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