
Crédito: Angela Debellis
“Parece que no final das contas vivemos num mundo cão.” (p. 215)
Quando um livro é adaptado para o cinema / televisão, normalmente eu prefiro fazer a leitura da obra original, antes de assistir à versão para as telas. No caso de “O Homem-Cão”, fiz o caminho contrário (embora já conheça o maravilhoso trabalho de Dav Pilkey há muito tempo).
E posso dizer que foi ainda mais divertido confirmar o quanto há de potencial para se fazer outras produções com o improvável herói da franquia literária, que é tão cativante nas ilustrações em papel, quanto na animação recém-chegada aos cinemas.
O primeiro capítulo da coleção nos apresenta o carismático protagonista, Homem-Cão – figura que surge após a fusão de dois companheiros de trabalho: o corpo do policial desprovido de inteligência, Rocha, e a cabeça do esperto cachorro, Greg.
Em outros gêneros – como terror ou ficção científica – essa hipotética junção teria capacidade de gerar roteiros bem diferentes, mas a proposta do livro é fazer do exagero algo absolutamente engraçado e inofensivo – coisa que consegue desde as primeiras páginas.
Três narrativas diferentes – mas que acabam se complementando – são contadas em 236 páginas ilustradas com a graça dos desenhos que uma criança faria. Nesse caso, os autores fictícios das histórias em quadrinhos são os queridos Jorge e Haroldo (mentes brilhantes que também deram vida ao icônico “Capitão Cueca” – adaptado com primor em um filme e uma série).
Embora seja uma edição voltada ao público infantil, a verdade é que embarcar na imaginação dos dois amigos é um convite irresistível a quem, assim como eu, reserva uma parte de seu coração de leitor a publicações do tipo. É a oportunidade de rir de coisas simples e torcer por personagens que despertam a curiosidade de nossas crianças interiores.

Crédito: Angela Debellis
A clara divisão entre o bem e o mal não parece extrema (como seria na vida real). Mesmo o antagonista principal, Pepê, tem ações que sabemos não serem corretas, mas tudo é transmitido com cuidado para não dar ao conteúdo um peso que não lhe caberia.
Desse modo, até os momentos de embate entre o herói e o vilão são cômicos, afinal, não dá para levar muito a sério uma arma na forma de um Aspirador de Pó gigante – capaz de aspirar o mar -, ou um exército formado por Cachorros-Quentes que ganham vida.
Tal senso de absurdo é o que torna a publicação tão interessante e faz com que logo que chegamos à última página, já tenhamos vontade de ler a próxima aventura. Até o momento, onze volumes da saga canina foram lançados no Brasil, pela Companhia das Letrinhas.
Vale dizer que, para melhorar a experiência que já é incrível, a obra propõe aos leitores uma simpática interação chamada “Vire o Game”, através da qual, cria-se a ilusão de movimento de determinadas passagens do exemplar.
Como leitora apaixonada pelo trabalho de Dav Pilkey (e feliz proprietária da série completa do “Capitão Cueca”), já deixarei reservado um espaço em minha estante, especialmente para receber “O Homem-Cão”.
por Angela Debellis
*Leitura feita a partir do exemplar cedido pelo Selo Companhia das Letrinhas da Companhia das Letras.


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