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Crítica: “O Bosque Selvagem”

“Existe mágica nesse mundo. Existe mágica em você.”

Vivemos em uma época na qual a velocidade define o que merece atenção. Quem compra antecipado, quem posta antes nas redes sociais, quem atinge números astronômicos de visualizações e/ou bilheteria primeiro.

O que torna ainda mais incrível saber que uma produção pode levar dezesseis anos até ganhar a luz, ou no caso de “O Bosque Selvagem” (Wildwood), as salas de cinema, onde chega sob a direção de Travis Knight.

Conhecido por seu esmero e paciência na realização de trabalhos, o Estúdio Laika novamente entrega um resultado impecável. Mas, nem a confiança (obtida graças a títulos como “Coraline e o Mundo Secreto”, “ParaNorman” e “Kubo e as Cordas Mágicas”) preparou os espectadores para o que viria a seguir.

Baseada no livro homônimo de Colin Meloy (ilustrado por sua companheira Carson Elis), a animação traz a parte inicial da trilogia literária iniciada em 2011. Claro que a torcida é para que as outras sejam adaptadas, mas de todo modo, o primeiro capítulo funciona muito bem sozinho.

A narrativa se passa na cidade de Portland, localizada no estado americano do Oregon, e nos apresenta a família composta por Sra. McKell (voz de Maya Erskine no roginal e Flavia Saddy, na versão brasileira); Sr. McKell (Jake Johnson / Daniel Müller); a primogênita, Prue (Peyton Elizabeth Lee / Giulia Benite); e o caçula Mac (Arthur Knight / Helena Moura Corrêa).

Levando uma vida tranquila (beirando o exagero), o casal parece esconder um segredo envolvendo a, por eles chamada, “Floresta Impassável” – cenário principal das ações que ditarão o roteiro de Chris Butler.

Sem medo de chocar a plateia, o longa já começa com uma surpreendente e dolorosa sequência envolvendo o jovem Príncipe Alexei (que não tem nenhuma fala – e nem precisaria para emocionar), cuja morte inesperada e precoce implica na gradual perda de lucidez de sua mãe, Alexandra Svik (Carey Mulligan / Sabrina Miragaia), conhecida como “Governadora Viúva”.

Desobedecendo a seus pais, cujas orientações eram claras para nunca tirar Mac de dentro de casa, Prue leva o bebê para um passeio pela cidade. Tal decisão culmina no sequestro do menino por um misterioso bando de corvos que o conduz para além dos limites da floresta.

Salvar o irmão é o ponto que dá início a uma jornada repleta de mistérios e descobertas da jovem protagonista. Junto a ela na missão, um improvável companheiro: o sonhador Curtis (Jacob Tremblay / Pedro Burgarelli) que vivenciará na pele, coisas que só havia experimentado em tabuleiros de RPG.

A trama é, relativamente, simples. O resgate de um inocente, as consequências de atitudes individualistas, o estabelecimento da confiança. E isso abre espaço para temas amplos e que serão mais bem absorvidos pelo público adulto, em especial, a maneira como lidamos com o luto.

Sem tirar Alexandra do posto de antagonista, podemos enxergar determinadas atitudes com olhos menos julgadores. A consciência sobre certo e o errado está lá, mas o coração despedaçado ganha uma voz impossível de ser ignorada – mesmo sabendo tudo que pode ser causado por essa anuência.

Se, textualmente, a obra caminha para a seriedade, visualmente mostra que é viável fazê-lo com suavidade e beleza. Se observar a Prue chorando nos dá um aperto no peito, por outro lado ficamos maravilhados com a delicadeza de cada lágrima que cai de seus olhos.

Através desse equilíbrio, acompanhamos o desenrolar da maior produção de stop-motion já feita – tanto em escala, quanto em duração (130 minutos). Entre incontáveis destaques, a menção à batalha épica travada entre os Bandidos do Reino Norte – liderado pelo carismático ex-guardião, Brendan (Mahershala Ali / Rafael Corrêa) – e os letais Coiotes da Guarda da Governadora.

Também cabe dizer que há personagens coadjuvantes incríveis, como a sábia anciã, Efigênia (Tantoo Cardinal / Marize Motta) e a imponente Gavião General (Angela Bassett / Izabel Lira). Mas, foi a menor figura que me conquistou: com o tamanho de sua coragem sendo o inverso de seu físico, a frágil – porém, corajosa – ratinha Septima (Awkwafina / Carol Crespo) é uma das melhores representações de lealdade que eu já vi.

Talvez o mais bonito disso tudo seja o fato de que, mesmo com o visível aumento na qualidade das imagens, ainda são perceptíveis as ações dos manipuladores responsáveis pelos 24 frames que animam cada segundo do longa. É a maior prova de que arte e tecnologia podem (e devem) andar de mãos dadas.

É bem provável que “O Bosque Selvagem” sagre-se vencedor em diversas premiações no ano que vem. E, quem sabe, consiga espalhar um pouco de brilho em nosso mundo. Afinal, como é dito em certo momento da história: “Você pensa que superou a mágica, mas a mágica não saiu de você”.

Imperdível.

por Angela Debellis

*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Imagem Filmes.

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