“Lar é onde você estiver”
Lançada em 2021, a minissérie em quadrinhos “Supergirl: Mulher do Amanhã” (escrita por Tom King e ilustrada por Bilquis Evely) é tida como um dos títulos mais aclamados entre os fãs da DC. O motivo dessa predileção fica bem claro, logo no início de “Supergirl”, que leva às telonas a narrativa repleta de camadas vistas nas páginas da graphic novel.
Fora algumas óbvias alterações (nem todas necessárias, como sempre acontece na transição entre mídias distintas), o texto adaptado por Ana Nogueira segue o obra original de maneira louvável, preservando o que há de mais relevante: a jornada de Kara Zor-El (Milly Alcock) para encontrar a si própria e aceitar a missão que o destino lhe impôs: ser uma super-heroína.
O longa se passa durante as solitárias comemorações dos 23 anos da jovem, em diversos planetas iluminados por sóis vermelhos, nos quais ela transita a fim de “perder” seus poderes e ser capaz de sentir todas as consequências de incontáveis rodadas de bebidas.
A seu lado, Krypto faz as vezes de amigo, escudeiro e lembrete diário de que há algo pelo que lutar. Acompanhar o primeiro encontro da dupla, quando ainda viviam em Argo City (cidade que sobreviveu à explosão do planeta Krypton e onde Kara nasceu) é um dos momentos mais comovente do longa dirigido por Craig Gillespie.
E é esse inquebrável elo de amor e compreensão (mais tocante aos tutores de animais) que fará a protagonista ter que se posicionar sem hesitação, quanto a como, quando e por que usar seus poderes para fazer o bem, mesmo se o mundo não parece merecer seus préstimos.
Ao contrário de seu primo, Kal-El (David Corenswet), que foi acolhido pelo casal Kent ainda bebê, Kara carrega traumas de antes de ser enviada a Terra. Krypton não é somente o nome de seu planeta natal, é sinônimo de lar, de segurança, de família. Assim como simboliza dor e perda, o que culmina em um coração em dúvida, mesmo que a mente saiba o que é o certo.
Contudo, o distanciamento da jovem – que leva uma rotina errática, buscando suprimir sua dor no espaço – precisa ser deixado de lado, quando a vida de seu cãozinho corre risco. Três dias são tudo que ela tem para ir ao planeta Bilquis, encontrar o antídoto que salvará seu melhor (único?) amigo.
Enquanto busca a cura, ela será acompanhada por Ruthye Marye Knoll (Eve Ridley), que, aos 13 anos, viu sua família ser dizimada pelo antagonista, Krem dos Montes Amarelos (Matthias Schoenaerts), cruel caçador de recompensas, líder dos piratas espaciais conhecidos por Bandoleiros.
Impedir que a vingança cega transforme a garota em uma assassina é admitir a importância de saber lidar com aquilo que nos fere, sem que nos tornemos reféns dessa dor. Desse modo, a jornada de vingança ganha contornos de redenção para Kara (e isso é sublime).
Sem fazer parte do material de base, a inserção de Lobo (Jason Momoa) na trama é um dos grandes acertos do filme. O alienígena humanoide de aparência intimidadora, é responsável pela extinção de sua espécie e planeta, Czarnia. Conhecido como “O Maioral”, o mercenário sem filtro moral ou pudor rouba as cenas em que aparece sobre sua imponente moto voadora.
Cabe ainda destacar a facilidade com que Krypto, assim como fez em “Superman”, consegue, mais uma vez, encantar os espectadores. A constante agitação – que lhe dá um ar adorável e sapeca – aliada ao visível amor que sente por Kara, torna fácil se afeiçoar pelos dois e torcer para que essa parceria seja mantida e celebrada por muitos anos (e em outros filmes).
Em determinado ponto da história, há uma surpreendente definição da protagonista: “Você nem sempre é legal, mas é gentil. Nem sempre é perfeita, mas é boa”. E eu acredito que essas palavras são um jeito maravilhoso de definir “Supergirl”.
por Angela Debellis
*Título assistido em Cabine de Imprensa promovida pela Warner Bros. Pictures.


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